Buenos Aires pelo Medianeras: internet, fios e outros isolamentos

Um amigo me emprestou esse filme.

– Pegue. É um romance, mas de certa forma, fala de arquitetura. Eu não tive paciência para assistir até o final.
Sem muitas expectativas, levei o Medianeras para casa.

É verdade que o filme é meio lento. Minha impressão é que a história foi contada com frases muito curtas. No começo impressiona, mas depois cansa. Porém para quem, ao contrário do meu amigo, tiver paciência para assistir ao filme todo, acabará se identificando com algumas cenas e se encantará com as coincidências criativas.

Com uma introdução que apresenta Buenos Aires como uma cidade que afasta as pessoas, cheia de fios, carros, poluída e “de costas para o rio” – discurso típico de urbanista chateado de pessoas que vivem em metrópoles e sofrem as consequências da urbanização destruidora – conhecemos Martin, um web designer antissocial que resolve toda a sua vida pela internet. Martin culpa os arquitetos e incorporadores por uma série de doenças e neuroses que ele mesmo é vítima. Para ele, Buenos Aires é o retrato do caos de nossas vidas, resultado da opção pela cultura do inquilino.

A outra protagonista do filme é Mariana, uma arquiteta perturbada que trabalha como vitrinista, não consegue entrar em elevadores e vive tentando encontrar Wally em ilustrações super populosas.

Os dois vivem na Avenida Santa Fé. Em várias circunstâncias se encontram na cidade, mas não se percebem. Ao longo do filme, o espectador assiste ao surgimento de pequenas coincidências e acaba torcendo pelo encontro inevitável.

Mesmo apresentando uma Buenos Aires não-turística, o filme ainda traz informações que viajantes mais ligados em arquitetura curtirão, como a história do Edifício Kavanagh, que por muitos anos foi o mais alto da Argentina e foi construído por causa de uma curiosa vingança arquitetônico-amorosa.

O título do filme também merece destaque. Achei muito curioso, pois não sabia que “medianeras” é como se chamam na Argentina as laterais cegas (sem janelas) dos edifícios. Essas fachadas são geralmente utilizadas para propaganda, mas no filme são a materialização do isolamento humano. Na melhor cena do enredo, Martin e Mariana resolvem quebrar suas medianeras para enfim ter mais contato com o exterior.

Não aconselho ninguém a sair quebrando as paredes dos quartos, até porque seu prédio ficaria horrível… Mais importante que isso é quebrar as medianeras invisíveis. Por essa e outras mensagens, sugiro assistir a essa pequena surpresa que é o filme dos nossos hermanos. Comece por esse trailer:

| Eu vou | Petter Dantas | 2013

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