Veneza e os estranhos sentimentos provocados pela cidade

Algum dia você já leu um texto escrito por outra pessoa que fala exatamente o que você queria dizer? Depois de ler, você pensa: peraí, essas palavras são minhas, mas eu ainda não falei isso!

Quando conheci Veneza, senti uma espécie de fascínio e depois algo muito estranho, uma espécie de desilusão, mas nunca consegui entender bem essa sensação. Um dia, um amigo me mostrou um texto escrito por Lúcio Costa – o arquiteto que projetou Brasília. Quando li o texto, fiquei arrepiado! Lúcio visitou Veneza em 1926 e sua descrição traduz exatamente o que senti ao caminhar por aquela cidade 86 anos depois. Não adianta mais eu tentar explicar o que é Veneza para mim, pois ele já fez isso com perfeição.

“(…) Depois Veneza, com San Marco e o Grande Canal. Vocês não calculam como é esquisita a impressão – misto de desilusão, de espanto e de prazer – que se tem ao ver de repente – real, nítido, preciso – um lugar muito conhecido através de pinturas, desenhos e descrições. Uma imagem que existia assim informe e vaga no fundo da nossa retina, da nossa memória, como uma coisa vista há muitos anos, numa outra vida – em sonho – que se acreditava uma coisa irreal, uma visão de conto… e de repente, uma noite, caminhando por vielas e becos estreitos e sombrios, ao passar uma arcada, toda essa visão que se julgava fantástica como uma figura inventada, surge inesperada, real, concreta, tangível. (…)

Visitar Veneza 02

E tudo surgiu assim de repente, e eu olhava para tudo com espanto, e me sentia triste, e me sentia contente. Numa sensação ao mesmo tempo de prazer e desencanto. Era como se dentro de mim qualquer coisa desmoronasse ou se partisse para logo se transformar – ressurgir – numa metamorfose imprevista. E esse momento de transição, esse rápido instante em que a realidade substitui o sonho é de um prazer doloroso, de uma alegria triste. Assim Veneza, essa cidade de romance, é uma coisa que existe, que tem vida, uma cidade como outra qualquer… E, de fato, nos dias que se seguiram vi que Veneza, embora diferente de todas as outras é, no fundo, uma cidade como outra qualquer. Desagradável para se viver, pois deve cansar. Falta espaço, falta vegetação. É difícil o transporte e difíceis são as comunicações. Os pequenos canais e as pequenas “calles” sendo quase sempre sujos e feios, nem sempre são pitorescos. (…)

Visitar Veneza 03

A verdade é que Veneza é realmente bela. Para a compreender e amá-la é preciso vê-la durante o dia e às tardes. Que sonho, que hino de cores, que céu! Não é também esse céu distante, “fundo de cenário”, dos outros países da Europa. Não. Sem ser intrometido como o nosso e sem ser indiferente como o das outras terras, é um azul que tudo envolve, que está em tudo e paira sobre todas as coisas. É um céu voluptuoso. Um céu que sorri. (…)”

Visitar Veneza 01

|Eu vou| Petter Dantas | 2012

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4 comentários em “Veneza e os estranhos sentimentos provocados pela cidade

  1. Estive em Veneza tres dias fiquei emocionada pela beleza era meu sonho conhece-la! se Deus permitir votarei novamente para conhecer todo esse sonho….

  2. Veneza é incrível. Tudo paira sobre a água… Penso se vai afundando devagar. Linda demais, mas penso sempre em como é vulnerável.

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